IGREJAS DO SERRO: TENDAS DE DEUS E DA LIBERDADE


O Serro é um solo sagrado dos cristãos,
desde a chegada dos primeiros homens brancos.
Suas igrejas guardam a história deste povo, mas
não só as igrejas, a cidade toda é um templo de fé.


- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição

Igreja Matriz de N. Sra. da Conceição (Planeta Serro, face, 2012)
Tombada pelo IPHAN, é uma das maiores igrejas barrocas do estado, possuindo as torres em madeira mais altas do colonial mineiro. “Saint-Hilaire a descreveu como uma das mais belas e grandes que ele vira em toda a Província de Minas”. Foi neste templo que Lobo de Mesquita ensaiou seus primeiros acordes musicais. A primeira matriz da cidade era uma simples capela de palha, dedicada a Santo Antônio. Há notícias de uma segunda, entre os anos de 1725 e 1737, precedida de adro e no mesmo local da atual. A construção hoje existente, templo da arte e da fé, é fruto da evolução deste segundo edifício, sendo considerada por alguns a terceira matriz do Serro. Da sua construção se tem notícias a partir de 1776, sendo terminada em fins do séc. XVIII, no tempo do Ouvidor Domingos Manuel Marques Soares. Recebeu várias reformas durante o século XIX, sendo a mais importante datada de 1872 a 1877. Tem três particularidades, que são uma constante no Vale do Jequitinhonha : os óculos de formatos caprichosos, as torres com estrutura de madeira, destacadas em relação ao corpo da igreja, e a insinuação de paredes curvas nos anexos laterais da nave. Estes anexos funcionavam como sacristias, salas de reunião ou depósitos. O altar-mor apresenta excelente talha rococó, de autoria do entalhador Bartolomeu Pereira Diniz. O livro de despesas da Irmandade do Santíssimo registra também os pagamentos feitos ao mestre torneiro Joaquim Gonçalves de Aguiar, “por tornear as colunas para o retábulo”, aos entalhadores Bento André Pires e Francisco Pereira Diniz (Chico entalhador) e ao pintor e dourador Manuel Fernandes Leão. Na sacristia, um belo móvel de jacarandá, com enormes gavetas e armários laterais. A pintura do forro da nave, uma Nossa Senhora cercada de nuvens, anjos e ornatos, datada de 1828, é atribuída a Manuel Antônio Fonseca, pintor de destaque na região. Pendendo do teto da capela-mor, um grandioso lustre. A fachada, restaurada em meados do século XIX, com a construção de alicerces em pedra, é de grande simplicidade, mas de medidas gigantescas. A igreja é cercada por uma interessante paisagem urbana, composta de escadarias, uma majestosa muralha de pedras, ladeiras laterais e gramados sobre belas ondulações do terreno. É sede da Irmandade do Santíssimo. As irmandades que não tinham igrejas próprias mantinham, nesta matriz, altares dedicados aos seus santos protetores. Lá os fiéis serranos celebram anualmente a festa da padroeira da cidade, N. Sra. da Conceição. Foi tombada pelo IPHAN em 22/07/1941. 
Localização: Praça Getúlio Vargas (antigo Largo do Pelourinho); tel: ( 38 ) 3541-1221; visitações: segunda a sábado de 12 às 17:30 h; domingo de 8 às 11 h.


- Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Igreja do Carmo
Igreja construída pela Irmandade de mesmo nome, ainda atuante nos dias de hoje. As suas obras foram executadas de 1768 a 1781. Em 1780 se trabalhava na fachada, com a edificação das torres, ajustada com o mestre José da Silva Ribeiro. No frontispício, uma tarja talhada em madeira policromada representa a figura de N. S. do Carmo entregando os escapulários a S. Simão Stock. Os altares são de estilo rococó, representativo dos fins do século XVIII. Destaque para a pintura do forro da capela-mor (Virgem do Carmo e S. Simão Stock), cujo autor, desconhecido, teria sido um discípulo de Manuel da Costa Ataíde, pois guarda muitas semelhanças com a pintura do teto da capela-mor da matriz de Santo Antônio, em Santa Bárbara, executada pelo Mestre (alguns a atribuem a Silvestre de Almeida Lopes). A porta dianteira original da igreja foi vendida a um negociante de antiguidades, antes de 1941. O naturalista francês Saint-Hilaire, em visita ao templo em princípios do séc. XIX, achou-o “lindo e bem arejado”, e com uma ornamentação superior à de muitas igrejas da França. O terraço onde se assenta a igreja é sustentado por enormes muros de pedras, hoje cobertos por uma linda vegetação, e o acesso principal se dá pela escada fronteiriça, em forma de cálice. Foi tombada pelo IPHAN em 24/11/1949. Juntamente com a Praça João Pinheiro (antigo Largo da Cavalhada), a Igreja de Santa Rita, belas casas e palmeiras imperiais, forma o conjunto arquitetônico mais expressivo da cidade. 
Localização: Praça João Pinheiro; tel: ( 38 ) 3541-1272; visitações: sábados, de 15 às 21 h.


- Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos

Igreja de Matozinhos
Apesar da data no medalhão da pintura do Forro (1797), já em 1785 há alusões à Igreja do Matozinhos do Serro. É um dos mais belos templos da cidade, com fachada em estilo de chalé, óculo envidraçado no frontispício e quatro sacadas de balaústre de madeira. No interior, a organização decorativa é harmoniosa e elegante, com talhas e pinturas bem ao estilo rococó da segunda fase do barroco. As pinturas são atribuídas a Silvestre de Almeida Lopes, um dos mais talentosos pintores brasileiros e o artista mais importante do Serro, na segunda metade do século XVIII, tendo deixado belas obras também em Diamantina. Destaque para o forro, pano de fundo do altar-mor e painéis laterais da capela-mor. A pintura do forro representa a cena de achamento da lendária imagem do Bom Jesus, na praia de Matozinhos, em Portugal. Uma das pinturas murais - a Adoração dos Pastores - é baseada em estampa de um antigo missal da Antuérpia, de 1744. O artista, entretanto, não se entregou passivamente à cópia, tirando partido do modelo e imprimindo um gosto pessoal e orientação própria. Nesta Igreja funcionou a antiga Irmandade das Mercês e São Benedito. Tombada pelo IPHAN, em 14/01/1944, é nela que se celebra anualmente a Festa do Divino, manifestação religiosa tradicional da cidade. 
Localização: Praça Cristiano Ottoni; tel: ( 38 ) 3541-1440; visitações: de terça a Sábado, de 12 às 17:30 h e domingos, de 9 às 12.


- Igreja de Santa Rita
(vista panorâmica da cidade)

Igreja de Santa Rita (Eliene Resende, face, 2015)
É o maior símbolo do Serro, localizada no alto da cidade, com fachada poligonal de inusitada composição, uma única torre central e um grande relógio, que é a principal referência das horas para os moradores. Uma das mais antigas igrejas da localidade, construída provavelmente no início do século XVIII, em 1745 já se fazia referência a campanhas para sua ornamentação. O sino é datado de 1732. Internamente, tem interessantes recursos decorativos, como as falsas tribunas da nave (fazendo supor um segundo andar), paredes revestidas de bela pintura de marmorizados e motivos florais, além de talhas de boa qualidade. O acesso, para quem vai do centro da cidade, se dá por uma bela e longa escadaria de pedras, com 57 degraus largos (curiosamente conhecida por “escadinha”), que proporciona uma das paisagens coloniais mais bonitas e originais de Minas Gerais. Do alto da escadaria, à frente da igreja, uma bela vista panorâmica das montanhas e da cidade, com suas ruas, casarões e outras igrejas. Ali se celebra, anualmente, a piedosa Festa de São Sebastião, o santo protetor do homem do campo. Não é amparada por medida direta de tombamento, mas está compreendida no acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, tombado em conjunto. 
Localização: Praça João Pinheiro; tel: ( 38 ) 3541-1221.


- Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Igreja do Rosário (Sidney Dutra, face)
A construção é da primeira metade do século XVIII, concluída em 1758, pela Irmandade do Rosário da Vila do Príncipe, em atividade desde 1728. Está edificada na região onde, nos primórdios da Vila do Príncipe, existiu uma Capela de N. Sra. da Abadia. No exterior, possui telhadinho em chalé, óculo envidraçado, duas sacadas com balaústre de madeira e uma porta larga, com almofadas e ornatos esculpidos. Tem pinturas e douramentos de Anacleto Gomes Pereira e Liberato Fernandes Leão. Anexo à igreja existe um cemitério destinado aos membros da Irmandade. A igreja sedia a Festa do Rosário, a maior manifestação de fé e folclore da cidade, promovida anualmente pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, no primeiro fim-de-semana de julho. O seu antigo sino foi encontrado recentemente na Igreja da Concórdia, em Belo Horizonte, onde permaneceu por mais de 50 anos, e foi solenemente reconduzido ao Serro. Em 2011, foi devolvido definitivamente ao templo, com a construção de uma torre lateral. Não é amparada por medida direta de tombamento, mas está compreendida no acervo arquitetônico e paisagístico da cidade, tombado em conjunto. 
Localização: Praça do Rosário; tel: ( 38 ) 3541-1221; visitações: às quartas-feiras, de 14 às 20:30 h.


- Capela de São Miguel
(Cemitério)

Capela de São Miguel (Adenilde Carvalhaes, face, 2013)
Trata-se de construção em estilo neo-gótico, com uma só torre, edificada no início do século XX, para suceder o velho hábito de sepultamentos no interior das igrejas. Merecem destaque o altar esculpido em pedras, as longas muralhas que cercam o cemitério, as carneiras e vários jazigos, que guardam os sagrados restos mortais e uma grande parte da história do Serro. A construção se deu por iniciativa do então Padre “Nondas” (Dom Epaminondas, depois Bispo de Taubaté/SP). Segundo a tradição oral, os muros foram erguidos em mutirão, com a própria população levando as pedras em solene procissão penitente até o local, no ponto mais alto da cidade. Antigamente o lugar era chamado de “Morro da Forca”, pois acredita-se que ali se executavam as sentenças de morte. 
Localização : Alto do Cemitério.


- Capela de Santa Tereza
(Antiga Casa de Fundição)

Capela de Santa Tereza (PMS, 2014)
A Capela de Santa Tereza (fins do séc. XIX) compõe um conjunto, juntamente com a Santa Casa, onde no passado funcionou a primeira sede do Senado da Câmara e depois a Real Intendência da Fundição, anexada à Residência dos Ouvidores. Ali era fundido todo o ouro da região norte-nordeste de Minas, durante o Brasil colônia, e separada a parte dos impostos (um quinto) da Coroa Portuguesa. A construção da Capela, cuja torre é esculpida em um maciço único de pedra sabão, foi coordenada pelo Padre João Moreira. Juntamente com a Capela de São Miguel tratam-se dos únicos exemplares de templos em estilo neo-gótico da cidade. São contemporâneas da atual Igreja do Caraça, também construída no mesmo estilo e foram edificadas no apagar das luzes do século XIX, pelo mesmo construtor português, Luiz Antônio de Figueiredo. As duas capelas contrastam com o estilo colonial e, justamente por este motivo, destacam-se em relação ao conjunto da cidade. 
Localização: Largo da Santa Casa.


- Capelinha de Santo Antônio do Pasto do Padilha
(Capela do Menino Antônio)

Capelinha de Santo Antônio (Tiago Geisler, face, 2014) 
Construída em estilo colonial, a capelinha possui uma torre, duas sacadas, quatro janelas laterais, altar rústico e simples. O local, na periferia da cidade, é bucólico, bonito e lendário. A origem do templo e a denominação popular “Capela do Menino Antônio” são devidas ao assassinato de um rapazinho de nome Antônio, por engano, neste local. Foi inaugurada em 03/05/1883. O sino foi doado por José Maria Batista e batizado com o nome de “Barnabé”. Lá são comumente celebrados os festejos de Santo Antônio, durante o mês de junho. 
Localização: Na saída da cidade, às margens da rodovia Serro/Guanhães (BR-259).



IGREJAS DOS DISTRITOS E POVOADOS

- Capela de N. S. das Dores
(Mato Grosso)

Capelinha de N. Sra. das Dores (Henri Yu, face, 2013)
Situa-se no alto de uma bela serra e é conhecida popularmente como “Capelinha do Mato Grosso”. “Em posição de eminência, sobre escarpado morro de pedra, domina uma ampla paisagem, deixando ver, desde longa distância em torno, a silhueta de suas duas torres”. Aparenta antiguidade, sediando a famosa e concorrida festa anual do Jubileu de N. Sra. das Dores, realizada sempre do 2.º ao 3.º domingos do mês de julho. Os romeiros se deslocam então para o lugar e ocupam as dezenas de casinhas construídas nas proximidades da Capela, exclusivamente para os dias da festa, ficando fechadas o restante do ano.
Adriano Reis Ramos nos brinda com esta bela passagem, quando disserta sobre os pequenos grandes Santuários de Minas, entre os quais destaca o de Mato Grosso: “Situado à beira de um penhasco, esse conjunto sacro, composto de uma igreja e várias casas de romeiros... onde, há mais de um século, já se encontrava instalado um cruzeiro para as romarias... se trata de manifestação oriunda do período barroco, resgatada e mantida pela religiosidade da população que habita o pequeno distrito ao pé da serra”.
“Todos esses conjuntos, objetos de peregrinações, romarias e jubileus, têm por peculiaridade a transmissão, a quem os utiliza, do sentimento de reflexão, do alcance da paz interna, da sintonia com o universo e outros desejos espirituais. Mas o que nos chama a atenção, no momento, é a persistência dessas populações, no que concerne à manutenção desses sítios”.
Sem maiores critérios estilísticos, mas impregnados de amor no ato de preservar o que é objeto de sua fé, essas comunidades resgatam seus templos, em toda sua plenitude e esplendor”. 
Localização: Distrito de Deputado Augusto Clementino (Mato Grosso), a 17 Km da cidade, pela estrada Serro/Conceição do Mato Dentro (MG-10).


- Capela de São Sebastião
(Mato Grosso)
Apesar do barroco estar descaracterizado pelo tempo, a Capela compõe, junto com as casas do Distrito, um conjunto típico dos pequenos povoados mineiros. Na Capela, com uma única torre central, se realizam as festas do Padroeiro, em abril, e a de N. S. do Rosário, em setembro. 
Localização: Distrito de Deputado Augusto Clementino (Mato Grosso), a 15 Km da cidade, pela estrada Serro/Conceição do Mato Dentro (MG-10).


- Igreja Matriz de N. S. dos Prazeres
(Milho Verde)

Igreja de N. Sra. dos Prazeres
A edificação, provavelmente do final do século XVIII, é estruturada em adobe e madeira, sendo composta de nave, capela-mor e duas sacristias laterais. Foi elevada a sede de paróquia em 1857. A ausência de torres é compensada por curioso sistema de sineira externa, anexa à fachada lateral. O interior, assim como as linhas gerais do templo, conserva quase intactas as características da época da construção. Possui um conjunto de três retábulos e talhas de boa qualidade. 
Localização: Distrito de Milho Verde, a 24 Km da cidade.


- Capela de N. S. do Rosário
(Milho Verde)

Capela de N. Sra. do Rosário (Instituto Milho Verde)
Erigida no curso do século XIX, é estruturada em barro e madeira, constituindo-se de um só compartimento e de uma graciosa fachada chanfrada, com uma torre única central. Está inserida numa magnífica paisagem, atualmente divulgada pela grande mídia como um dos símbolos de Minas. No topo de uma colina totalmente gramada, possui ampla vista para o vale e as serras que integram o maciço do Pico do Itambé. 
Localização: Distrito de Milho Verde, a 24 Km da cidade.


- Capela de São Geraldo
(Três Barras da Estrada Real)

Capela de São Geraldo (Alan Alencar, face, 2014)
Em estilo barroco, a Capela é composta por torre única central, nave, capela-mor e duas sacristias laterais. Situa-se nas encostas de uma bela serra, que compõe um dos mais agradáveis panoramas naturais do Serro. 
Localização: Distrito de Três Barras, a 14 Km da cidade, na estrada que liga o Serro ao Distrito de Milho Verde.


- Igreja Matriz de São Gonçalo
(São Gonçado do Rio das Pedras)

Igreja de São Gonçalo (Cleide Greco, face, Serro/MG, 2014)
É o mais significativo exemplar, entre as igrejas dos Distritos do Serro. Foi elevada a sede de paróquia pela Lei Provincial de 1408, de 07/12/1867. A construção é do último quartel do século XVIII, sendo constituída de nave, capela-mor, sacristias laterais e duas torres. No interior, um conjunto de três retábulos e altar-mor com delicada policromia e motivos florais. A pintura do forro é datada de 1787 e mereceu especial atenção do especialista Carlos Del Negro, por situar-se entre as fases do barroco e do rococó, o que equivale dizer, para a região, entre os estilos de José Soares de Araújo (Arraial do Tijuco) e Silvestre de Almeida Lopes (Vila do Príncipe). O trabalho apresenta a figura de S. Gonçalo, ladeado por anjos, florões e representações dos evangelistas. 
Localização: Distrito de S. Gonçalo, a 30 Km da cidade.


- Capela de N. S. do Rosário
(São Gonçalo do Rio das Pedras)

Capela de N. Sra. do Rosário (Soraya Lessa, face, 1998)
As suas linhas construtivas fazem supor tratar-se de edificação ainda do período colonial. A capela está bem inserida no conjunto urbano, tendo à frente árvores e um cruzeiro de madeira. É composta de nave, capela-mor, duas sacristias laterais e uma única torre central. O interior apresenta três retábulos, com talhas e motivos ornamentais. 
Localização: Distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, a 30 Km da cidade.

Capela de São Geraldo
(Capivari)

Capela de São Geraldo (Eduarda Dias Gontijo, face, 2013)
Localizada em uma bela colina frontal ao povoado, a edificação é estruturada em adobe e madeira, sendo composta de um só compartimento e de uma graciosa fachada com três sacadas. Sem a presença de torres, a capela possui uma interessante sineira externa, anexa à fachada lateral, semelhante à da igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, de Milho Verde. Lá é realizada anualmente a festa de São Geraldo. Localização: Povoado de Capivari, a 27 Km da cidade.



- BARROCO E ARQUITETURA
(em Minas e no Serro)

“A arte e a ciência não pertencem à pátria,
pois o sublime é universal e acessível a todos
os contemporâneos, para que o aprimorem à
luz das experiências do passado”.
(Goethe)


Minas Gerais, um estado de tradições seculares, tem no barroco a expressão maior de sua arte. Mas, até chegar a Minas e aqui assumir uma personalidade e um caráter únicos, o barroco andou um longo caminho.

A origem da palavra “barroco” tem versões diferentes. Uma das histórias a liga a uma pérola de contorno irregular. “No tempo das navegações, os portugueses descobriram na Índia um tipo especial de pérola que, ao invés dos perfeitos contornos esféricos, apresentava uma superfície cheia de irregularidades. Como era encontrada principalmente na cidade de Broakti - que os lusitanos pronunciavam Baroquia - surgiu, então, o adjetivo “barroco”, que passou a incorporar o idioma de Camões, qualificando tudo o que era extravagante e fora dos padrões vigentes. Da mesma forma foi designada a arte nascente que, chegando aos rincões da colônia pelas mãos dos jesuítas, floresceu com vigor admirável sob impulso da contra-reforma católica e do fervor religioso”.

A arte barroca é introduzida no Brasil primeiramente no nordeste (Salvador, Recife, Olinda, João Pessoa), pelos Jesuítas, em 1650. Em Minas, chegou pelas mãos dos bandeirantes, que já traziam imagens, conduzidas em oratórios portáteis de madeira, improvisados como altares, nas missas e orações. O esplendor do ouro e o difícil acesso reduziram a importação de obras de arte e fomentaram o surgimento de um barroco autônomo, mais tarde chamado de “barroco mineiro” (mais comum nas grandes áreas de garimpo) e “barroco rural mineiro” (em regiões que misturam à cultura do garimpo uma forte influência do ambiente agropecuário).

A Coroa proíbe a fixação de ordens religiosas em Minas. As irmandades terceiras, de leigos, ficam então encarregadas de sustentar o rito católico e de construir os templos, desobrigando o erário régio desse ônus. As irmandades primeiras, de padres e freiras, e as de ordem segunda, só de freiras, ficam excluídas. A “saudável disputa” entre as diversas irmandades acaba gerando esta infinidade de templos religiosos, cada um mais luxuoso e artisticamente decorado. No Serro, não foi diferente. Na mesma praça João Pinheiro, pode-se ver de um lado a igreja do Carmo e do outro a igreja de Santa Rita. Na parte baixa da cidade, de frente para a igreja Matriz, apenas a alguns metros, fica a bela igreja do Matozinhos e, logo ao lado, a capela neo-gótica de Santa Tereza.

O barroco mineiro costuma ser dividido em três fases, pelos estudiosos.

A primeira fase (ou estilo nacional português, aprox. 1700 a 1730), se caracteriza ainda pela influência da metrópole, as igrejas não apresentam ornamentação externa e contrastam com a riqueza do interior. As torres são normalmente cobertas de telhas.

A segunda fase (ou estilo D. João V, aprox. 1730 a 1760), tem o predomínio de ornamentos escultórios e enfeites ricos, em razão do apogeu da mineração. O material empregado passa da madeira e taipa para a alvenaria de pedra. Muitas das igrejas históricas mineiras são desta fase, com o exterior ganhando elementos ornamentais, principalmente em cantaria.

A terceira fase (ou estilo rococó, aprox. 1760 até fins do séc. XVIII), é o explendor dos enfeites e detalhes, desde a arquitetura externa, as paredes curvas, as portadas, a pedra sabão em várias tonalidades e os interiores ricamente trabalhados.

A arquitetura religiosa do Serro, apesar de edificada durante os períodos da segunda e terceira fases do barroco, filiam-se ao partido tradicional das igrejas mineiras do início do século XVIII (primeira fase), mantendo-se fiel a estes padrões e a peculiaridades regionais. A simplicidade externa contrasta com a ênfase ornamental dos interiores, onde as talhas douradas e as pinturas “alcançam níveis de altíssima qualidade, que as colocam em posição de destaque com relação a produções similares do resto de Minas”, graças principalmente a um artista excepcional, Silvestre de Almeida Lopes, introdutor do rococó na região, identificado por Rodrigo Melo Franco de Andrade. Contrariamente à arquitetura, a decoração interna revela-se contemporânea dos modelos artísticos adotados em outras regiões da capitania, entre a segunda e a terceira fases do barroco mineiro (rococó).

Em geral, as construções foram obra de mais de uma geração, cada uma deixando para a outra a tarefa de ir embelezando e enriquecendo o acabamento interior, de acordo com os recursos das Irmandades. As gigantescas dimensões e o altar-mor da igreja Matriz, o formato singular da Santa Rita, as pinturas e talhas do Matozinhos e do Carmo, a força espiritual do Rosário e o variado acervo de igrejas nos distritos transformam o Serro num dos principais guardiões do patrimônio barroco de Minas.

Para Antônio de Paiva Moura, “o traço comum existente entre o conjunto arquitetônico do Serro e Diamantina reside na preferência pela madeira. Ao contrário da região do Quadrilátero Ferrífero, que preferiu a alvenaria, em Serro e em Diamantina os exteriores das igrejas e edifícios são espetáculos cromáticos. Isto porque a madeira exige aplicação de tintas”. Até mesmo as festas religiosas da região, como as do Rosário e do Divino, acompanham este colorido, com guarda-roupas à altura do conjunto arquitetônico. Um espetáculo de cores cintilantes.

O afluxo e a emergência de artistas, arquitetos, mestres-de-obra, pedreiros, fundidores de sinos e outros profissionais nos garimpos do Serro Frio possibilitaram o aparecimento deste rico conjunto, com realce para a arquitetura religiosa, mas não menos valioso repositório arquitetônico público e civil.


- Fonte: "GUIA DO SERRO"



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